terça-feira, 9 de agosto de 2016

A Igreja de SP e o Pokémon

Posted by Redação On 18:20


Voltava de uma atividade no domingo à tarde e ao passar pela praça principal do bairro onde resido observei que inúmeros jovens solitários acessavam seus celulares e um deles consegui identificar que jogava o tal dos Pokémons. Uma praça repleta de jogadores jovens solitários e do outro lado uma paróquia vazia e escura.

Numa passageira observação constata-se o que muitos afirmam: somos uma sociedade de indivíduos onde as relações tornaram-se virtuais, fragmentadas e líquidas.

Quem são os Pokémons? São figuras virtuais de um jogo que utiliza uma tecnologia de realidade ampliada e funciona com a ferramenta do GPS. Agora a nova moda é caçar Pokémon por todos os espaços e a prática vem sendo adotada por usuários dos aparelhos modernos de celulares e aficionados por jogos eletrônicos.

Os jogadores – em sua maioria jovens – andam pelas ruas de olho na tela do celular para capturar as figurinhas do Pokémon e no envolvimento com a realidade virtual se desdobram por diferentes artimanhas para atingir o sucesso no jogo.

Esta mania que chega recentemente no Brasil já virualizou-se entre norte-americanos, europeus e asiáticos e os fatos vão revelando que estes jogadores estão se colocando em situações de riscos e de reais acidentes, podendo inclusive levar a morte.

A história não termina aqui! Eis que surge uma campanha da Arquidiocese de São Paulo pelas redes sociais com a seguinte observação:

Pokémon: vai jogar em uma Igreja Católica?






Inicialmente achei a proposta uma heresia, mas parei para analisar a questão e compreendi que não se trata de um convite para jogar Pokémon nas igrejas e sim uma orientação como por exemplo: “você pode jogar, mas respeite o lugar e aproveite para rezar”. Esta é a minha reflexão, mas as pessoas terão liberdade para chegar a outras conclusões.

A arte divulgada nas redes é de uma figura em destaque - o padre - e ao fundo a imagem de uma das Igrejas da cidade de São Paulo. Entendo todo o esforço dos profissionais do marketing religioso para atingir o crescente público jovem fanático pelo jogo eletrônico e uma possível reaproximação destas pessoas com a igreja católica.

Com relação a campanha, considero que o conteúdo e a estratégia estão equivocados. Lamentavelmente ainda continuamos acreditando que a Igreja (prédio) é a referência e o ministro ordenado (padre) é a centralidade do espaço. E a “isca” do marketing é um jogo eletrônico que não favorece a experiência do encontro.

Estrutura e os ministros

Outra observação é que a figura do padre na arte divulgada pode inclusive ser confundida com a figura de um Pokémon. É preciso tomar cuidado pois a caça de novos personagens no jogo pode revelar intenções diversas.

Sabemos muito bem que é visível a diminuição da presença dos fiéis no espaço religioso, na frequência das celebrações dominicais e no acesso aos sacramentos. A afirmação anterior poderá ser questionada por aqueles que não compreendem bem o que estamos tratando. E eu irei concordar, pois as igrejas que estão lotando são aquelas que continuam utilizando de métodos medievais com práticas devocionais equivocadas, naquelas onde a figura do ministro ordenado se torna uma espécie de pop-star; a experiência religiosa é não passa de uma catarse; creio que já fui bem claro nas considerações.

Há de se destacar também que cristãos leigos e leigas conscientes do ser Igreja e do ser Cristão não mais se enquadram na lógica da centralidade institucional e a submissão aos ministros ordenados e pouco a pouco se colocam em processo de retirada. Não perdem a fé, apenas passam a professar e vive-la de forma nova e inculturada a partir de outros referenciais e muitos deles anunciados por Francisco.

Ser Igreja é tornar-se povo de Deus, como afirma o Concílio Vaticano II, e ser cristão é mais fundamental que qualquer espaço ou práticas devocionais.  O papa Francisco denuncia que o “eclesiocentrismo é uma heresia” e a missão da Igreja (povo de Deus) é o estado permanente de saída, que concretiza no cotidiano o projeto humanizador do Pai que Jesus nos apresenta como Reino.

Para o momento, apresentar o Reino aos jogadores de Pokémon é um grande desafio. A contribuição inicial e mínima da Igreja para com a sociedade deveria ser de promover campanhas educativas: não jogue enquanto dirige; cuidado com o trânsito nas ruas; respeite os locais privados; as igrejas não são espaços para jogos, entre outros.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

O Ano da Graça do Senhor!

Posted by Edson Silva On 06:27


Mais uma vez o Papa Francisco responde aos sinais dos tempos convidando todos os cristãos, homens e mulheres de boa vontade, para um ano santo extraordinário tendo como mensagem central a misericórdia.

O mundo e a Igreja precisam muito desta misericórdia que vem do alto e brota no coração de cada pessoa. Tradicionalmente os jubileus são momentos oportunos para se perdoar e nos perdoarmos uns aos outros.

A passagem do terceiro milênio, celebrado por todos nós há 15 anos, apresentava um decálogo em favor da vida por meio de liberdades civis, direitos sociais e econômicos. Muito se fala na Porta Santa em Roma, fala-se nas muitas portas santas em Catedrais espalhadas pelo mundo. Mas, de todas as portas, a mais impactante e simbólica foi a inaugurada no “fim do mundo” (África), em um tempo não esperado (antecipado), pelo papa que foi eleito por causa de seu trabalho em outras tantas periferias.

“O Espírito do Senhor está sobre mim, pois ele me consagrou com a unção”

As ousadias do Papa Francisco, inspiradas pelo Espírito vivificador, nos surpreendem a todo instante e nos revelam toques e carícias de Deus na humanidade sofrida. Por isso, podemos afirmar que as verdadeiras portas santas para este jubileu extraordinário estão às margens do óbvio e tradicional.

“para anunciar a Boa Nova aos pobres”


A porta do barraco em uma favela é Porta Santa para crianças, mulheres, homens, idosos, famílias que se constituem de formas diversas. Tamanha insegurança e abandono para aqueles que não encontram condições de moradia. Não se habita, não há saneamento, não há condições mínimas de vida.

“enviou-me para proclamar a libertação aos presos”

A porta da cela de uma prisão é Porta Santa para aqueles que entram, para os que saem, para os que permanecem. Tamanha dor e sofrimento vivem homens e mulheres encarcerados num sistema prisional que não liberta, não dignifica, não promove, não justifica e não reintegra.

“aos cegos, a recuperação da vista”

A porta da sala de aula na escola é Porta Santa para todos aqueles que buscam conhecer, promover o conhecimento e desenvolver a pessoa de forma integral. Tamanho descaso e ignorância num sistema educacional que não forma, não educa e não promove sabedoria.

“para dar liberdade aos oprimidos”

A porta da emergência no hospital é Porta Santa para todos aqueles que na emergência buscam a saúde, o alívio para dor, a cura para a enfermidade. Tamanha desconsideração e sucateamento. Não há atendimento suficiente, não há profissionais valorizados, não há infraestrutura suficiente, não há gestão pública.

“e proclamar um ano de graça da parte do Senhor.” (Lc 4, 18-19)

São tantas as portas neste Jubileu Extraordinário da Misericórdia que nos ajudarão a converter as mentes e os corações! Propiciarão a mudança de comportamentos, palavras e atitudes. Portas que abriremos a todos que precisarem.

Novamente começamos um tempo de graça, de perdão e de conciliação para que a Vida floresça com mais força. Serão a paz e a justiça frutos da misericórdia de Deus.

Edson G. P. O. Silva

Presidente do Conselho de Leigos da Arquidiocese de São Paulo – CLASP

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Um pacto dos discípulos de Jesus

Posted by Redação On 05:19

Capela das Catacumbas de Domitila, onde se firmou o Pacto
 das Catacumbas há 50 anos. Foto: Edson Silva/IP

Em Roma, nas proximidades do Vaticano, lideranças eclesiais de todos os continentes se encontram na Casa La Salle para comemorar, em comunhão com o Papa Francisco, os 50 anos do Concílio Vaticano II. A proposta é refletir o lema “Rumbo hacia uma Iglesia, inspirada en el Evangelio, para el mundo” e as atividades serão concluídas na festa de Cristo Rei na Praça de São Pedro.

É um encontro internacional que congrega a representação de 26 países, onde compartilhamos iniciativas e experiências. Nos últimos quatro anos também foram realizados debates, conferências, seminários, estudos que (re)apresentaram indicações pastorais, teológicas, eclesiais e sócio-políticas para que a Igreja retome a caminhada reformadora com base nos documentos conciliares na perspectiva proposta pelo papa São João XXIII.

Este é um momento oportuno para manifestar de forma comunitária e colegiadamente, como Povo de Deus, o apoio irrestrito as iniciativas reformadoras do Papa Francisco.

O tempo que vivemos é verdadeiramente um “kairós”, pois o Papa Francisco reabre perspectivas para que a Igreja em sua simplicidade, como comunidade de homens e mulheres, responda aos desafios complexos deste mundo a partir do Evangelho de Jesus Cristo.

Os problemas são muitos, porém há inúmeras experiências e sinais de esperanças em diferentes partes do mundo. São cristãos e cristãs, homens e mulheres de boa vontade, que sinalizam e constroem o Reino de Deus nestas realidades de abandono, pobreza, opressão e violência em geral.

Nestes dias as reflexões ocorrem entre dois grandes blocos: os desafios do mundo que questionam uma Igreja inspirada no Evangelho e uma Igreja inspirada no Evangelho para iluminar o mundo.

Os desafios do mundo nos levam a pensar sobre as questões da paz e da guerra; a busca por mediação de conflitos; a justiça social e a economia; a situação dos direitos humanos, a imigração, tráfico de pessoas; os temas sociais como família, sexualidade, gênero, LGBT; impacto entre as culturas e religiões. Neste bloco, destacam as ações de busca por paz com a presença e o apoio da Igreja e dos cristãos; o compromisso dos cristãos e da Igreja com as grandes causas e de modo especial com o meio ambiente.

Para iluminar o mundo a Igreja inspirada pelo Evangelho, tem a emergência de testemunhar sua caridade e esperança com a reforma da estrutura eclesiástica, reorganização e revisão dos ministérios, a igualdade de gênero, a importância das comunidades eclesiais de base, a autonomia do laicato católico, o diálogo intra-eclesial, o diálogo com as outas religiões e culturas e por fim a espiritualidade encarnada.

Neste encontro, faz-se memória do Pacto das Catacumbas e reafirma-se o compromisso de trazê-lo para o centro da vida eclesial a fim de cumprir sua mensagem evangélica de uma Igreja pobre, para os pobres e com os pobres, como tem sido indicado pela Papa Francisco. Os compromissos do Pacto das Catacumbas não estão restritos apenas aos ministros ordenados também são extensivos a todo Povo de Deus.

E ao final do encontro as lideranças eclesiais escreverão ao Papa Francisco afirmando:

“Nós, discípulos de Jesus, fiéis católicos, membros do Povo de Deus, reunidos em Roma em 22 de novembro de 2015 por ocasião do 50º aniversário do Concílio Vaticano II, conscientes dos desafios (...), sendo sensíveis aos sinais dos tempos (...), considerando a situação atual de nossa Igreja (...), conscientes do contratestemunho de alguns irmãos (...), reconhecendo nossas falhas e deficiências (...) nos comprometemos reorientar nosso mundo e trabalhar em favor da revitalização da Igreja (...).”

“E de volta aos nossos países, compartilharemos os compromissos com nossas comunidades, associações, paróquias, para que nos deem seu apoio e orações, e lhes convidaremos a que se unam para realizar estes compromissos (a versão final do texto será publicada somente no domingo)."

Neste contexto de um encontro eclesial, internacional e inter-cultural nos propomos na diversidade pastoral testemunhar o Evangelho de Jesus Cristo que vai ao encontro da pessoa humana e das suas necessidades.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

A nova manobra política de Dom Odilo

Posted by Redação On 20:23

Foto: Divulgação
O Sr. Cardeal Dom Odilo Pedro Scherer tem aparecido com frequência recentemente no noticiário, infelizmente, não por motivos que tragam uma melhor imagem para a nossa arquidiocese. Foi observada a sua estranha declaração sobre a transsexual crucificada na Parada LGBT, seu envolvimento com as denúncias contra o bispo de São José do Rio Preto (SP) Dom Tomé como investigador a pedido da Cúria Romana e a proibição da cátedra Michel Focault na PUC-SP.
É de se indignar e de se lamentar que mais uma vez o nosso arcebispo, que deveria ser notado apenas pelo zelo pastoral com seus fiéis, ficará em destaque agora com a futura criação do Consale (Conselho Arquidiocesano de Leigos), após reunião no próximo sábado (20).

A novidade causa estranheza, já que se sabe que já existe um conselho de leigos em nossa cidade, o Clasp (Conselho de Leigos da Arquidiocese de São Paulo), o qual tenho a graça de participar e representar há alguns anos.

Enquanto Dom Odilo Pedro Scherer ia visitar Dom Paulo Evaristo Arns no hospital Santa Catarina há uma semana, que estava internado, ao mesmo tempo articulava a criação de um conselho paralelo ao reconhecido por Dom Paulo em 1994 por meio de um decreto episcopal.

O Clasp atua há mais de 20 anos articulando os fiéis leigos e seus respectivos movimentos e organismos desta arquidiocese, zelando pelo protagonismo do laicato à luz do que foi determinado no Concílio Vaticano II e das diretrizes gerais da ação evangelizadora da Igreja no Brasil.

Dom Odilo, entretanto, parece não gostar dessa independência e argumenta não ter um conselho próximo a si. Importante destacar que o mesmo é sempre convidado pelo Clasp para encontros e reuniões e normalmente não costuma comparecer, quando aceita o convite permanece por um tempo curto e na maioria das vezes não é muito simpático ao colegiado dos leigos.

O cardeal avalia que possui a autoridade para criar um segundo conselho desvinculado do CNLB (Conselho Nacional do Laicato Brasileiro), mas seus argumentos estão baseados numa interpretação unilateral do Direito Canônico que não reflete a ação pastoral da Igreja no Brasil após o Vaticano II que conceitua Igreja como Povo de Deus (LG) e abre as portas para iniciativas inovadoras considerando a perspectiva conceitual/prática do laicato como sujeito eclesial e autônomo.

A perspectiva canônica é uma das possibilidades para compreensão da realidade, porém a análise restritamente jurídica é limitada e insuficiente para tratar de questões que envolvem organismos pastorais. Sendo assim, é preciso considerar a trajetória do Conselho de Leigos a partir do Magistério da Igreja, do ensino social e pastoral da Igreja na América Latina e principalmente as diretrizes da ação evangelizadora da Igreja no Brasil referenciada pelo episcopado brasileiro. Esta síntese poderá ser encontrada atualmente na segunda versão do Estudo 107 da CNBB recém-aprovado.

Quem é Dom Odilo?

Tais equívocos podem ser explicados pela trajetória do cardeal como ministro ordenado, histórico este marcado por uma carreira ascendente na estrutura hierárquica durante os papados de João Paulo II e Bento XVI. Período este em que a Igreja no Brasil foi perseguida pela cúria romana por meio do controle e censura de bispos, teólogos, organismos e pastorais sociais. Esta estratégia teve seu auge no final da década de 90 após o pedido de renúncia do Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns ao completar seus 75 anos.

A maior parte da sua função presbiteral de Dom Odilo esteve vinculada a setores administrativos da cúria romana. Dos seus 67 anos de vida, mais da metade esteve vinculado a vida fora do Brasil e por conta deste histórico sua experiência com as organizações do laicato, lamentavelmente, se deu apenas no contato com movimentos de espiritualidade de origem europeia. Quanto às questões pastorais e administrativas da Igreja, Dom Odilo é caracterizado por seu centralismo nas decisões e a dificuldade de ouvir críticas.

Poderíamos citar inúmeras das suas medidas adotadas na Arquidiocese de São Paulo que indicam que seu modelo de Igreja é pré-conciliar e não reflete a vida pastoral da Igreja no Brasil.

Sendo assim, a Igreja de São Paulo precisa é de um arcebispo na perspectiva do papado de Francisco. É urgente e necessária a presença de um bispo-pastor, que dialoga com as diferenças, construtor de pontes, reconhecedor da diversidade ministerial e vocacional, promotor de sujeitos eclesiais e interlocutor entre fé e vida.

É lamentável que, em uma nova manobra para afastar de perto os que não seus bajuladores, o nosso pastor se envolva novamente em "fofocas" nos bastidores sobre a sua falta de transparência democrática e a tentativa de esvaziar o conselho reconhecido por Dom Paulo Evaristo Arns na década de 90.

Em 2010, quando da realização do I Congresso de Leigos na Arquidiocese de São Paulo, a estratégia de Dom Odilo e compartilhada pelo até então bispo auxiliar Dom Tomé Ferreira da Silva era de enfraquecer o Clasp. Porém, a ação do laicato e a confiança em Deus permitiu que o resultado fosse o não esperado pela hierarquia, pois o Clasp e seus respectivos conselhos de leigos sairam fortalecidos do processo.

Nos últimos dias, o arcebispo tem já apresentado a sua minuta de criação do Consale aos seus bispos auxiliares e para o conselho presbiteral, no qual ninguém se atreve a dar a sua opinião contrária ou observações sobre a atuação de Dom Odilo. É evidente que a proposta de Dom Odilo não é consenso entre os religiosos que se calam.

Mas em conversas privadas, os mesmos religiosos comentam que o intento não deverá dar certo e dão graças por não terem de participar das futuras reuniões do conselho de leigos paralelo, que será composto por 25 leigos escolhidos por Dom Odilo que deverão dizer "amém" para tudo que o clero decidir sobre o laicato.

A proposta de criação de um segundo conselho de leigos é mais uma das medidas que refletem a cisão criada dentro da vida pastoral, pois suas atitudes reforçam ainda mais a compreensão que a maioria das lideranças leigas e religiosas tem sobre o cardeal. As atitudes alternam-se entre práticas de intervenção, censura, boicote, desconsideração, autoritarismo, uniformidade, imposição, restrição, arrogância e lamentavelmente levando à ignorância.

O próximo arcebispo de São Paulo terá muito trabalho, pois deverá reparar os erros e as práticas equivocadas do atual cardeal, dentre eles o cancelamento do conselho de leigos paralelo do arcebispo de São Paulo.

Que a Virgem-Maria e Jesus Cristo façam com que a indignação dos leigos nas diversas regiões da arquidiocese se torne fé para continuarmos seguindo a nossa caminhada à luz das mudanças do Papa Francisco.

domingo, 12 de abril de 2015

Bispos do Brasil em Assembleia

Posted by Redação On 08:38

Dom Luciano, ex-presidente da CNBB e hoje "Servo de Deus".
Foto: Movimento de Defesa do Favelado

Nos próximos dias 14 a 25 de abril, a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) estará reunida para a 53ª Assembleia Geral em Aparecida (SP).

Na pauta, muitos assuntos: aprovação das novas diretrizes gerais da ação evangelizadora da Igreja no Brasil para 2015 a 2019; a proposta do Ano da Paz iniciado em 30 de novembro (início do Advento) para refletir e promover ações de superação à violência; publicação da nota “Brasil pós-eleições: compromissos e desafios”; e principalmente as questões eleitorais internas para a Presidência e as comissões episcopais que fazem o grande diferencial na condução dos trabalhos nos próximos anos.

Até o momento, não foi anunciado publicamente a possibilidade da aprovação do Estudo 107 da CNBB que trata sobre o cristãos leigos na Igreja e sociedade. A proposta anterior era que o estudo passasse a ser documento oficial a partir deste ano.

Segundo informações, é que o estudo receberá nova redação e possivelmente continuará na série "Estudo da CNBB". Parte minoritária dos bispos da CNBB – dentre eles Dom Odilo Pedro Scherer – apresenta questões contrárias ao conteúdo do texto e dos conceitos apresentados como Autonomia e a organização do laicato por meio do CNLB (Conselho Nacional do Laicato do Brasil).

A pauta principal que ocupará os meios de comunicação, como os corredores de Aparecida, será a eleição da presidência da CNBB. O atual presidente Cardeal Dom Raymundo Damasceno não poderá ser reeleito, pois já atingiu a idade para tornar-se emérito. A figura da presidência é fundamental, pois deve ser ocupada por um bispo com capacidade de diálogo, sensibilidade para as questões sociais, proximidade com a proposta da exortação papal “Alegria do Evangelho”.

Leia também: Bispo do Belém relembra memória de Dom Hélder e Dom Luciano

Se considerarmos a lógica das ultimas presidências, o futuro presidente será um Arcebispo, portanto, um Cardeal da Igreja. E o secretário-geral, um bispo auxiliar.

Que o Espírito Santo que auxiliou a escolha de Francisco paire sobre os bispos brasileiros.

Para orientar a pauta extensa de trabalho, os bispos do Brasil já conhecem qual é o caminho indicado pelo Papa Francisco: maior independência das Conferências Nacionais, autonomia para deliberar sobre questões que envolvam problemas locais e culturais e exijam da Igreja uma resposta adequada, o processo de uma Igreja em saída, a retomada da opção preferencial pelos pobres, superação da lógica excludente de novas interpretações teológicas e a pastoral misericordiosa comprometida com a pessoa humana.

Os bispos já estão com as malas prontas, vindo de norte a sul, leste a oeste, vão pouco a pouco chegando e colocando-se como romeiros, com os pés na estrada, rumo a casa da Mãe Aparecida.

Que Nossa Senhora Aparecida ilumine com muita sabedoria e mais uma vez apresente seu filho Jesus – menino-Deus, adolescente rebelde, carpinteiro, leigo, profeta do Pai – para que os pastores tenham cheiro de ovelha.

domingo, 29 de março de 2015

Por que um blog com o título de Ação Católica?

Posted by Redação On 21:56

Para a primeira postagem optei por refletir sobre o título do blog. Interessante é que este não é o primeiro a usar este termo, pois há um outro um tanto quanto meio pré-Ação Católica do que propriamente Ação Católica na perspectiva da proposta iniciada no final do século XIX na Europa (Itália e Belgica) e no anos 20 do século passado no Brasil.

A Ação Católica foi o espaço priveligiado para o laicato assumir sua condição batismal de forma inovadora – interessante destacar que estamos falando da passagem do século XIX para o XX – onde o fenômeno da clerizalização e da hierarquização da Igreja ainda era muito forte.


Considero que a Ação Católica na Europa foi uma resposta que o laicato católico ofereceu para uma sociedade em processo de grandes transformações. Havia um sentimento e a busca favorável por caminhos novos onde o laicato era o ator principal. Também havia a preocupação de uma parte da Igreja – minoritária – em estar próxima do povo, dos trabalhadores operários e dos grupos sociais que viviam na invisibilidade social e eclesial.

No caso brasileiro, avalio que inicialmente a Ação Católica foi utilizada como forma de recuperação do diálogo entre sociedade e Igreja após 30 anos de decadência e distanciamento da hierarquia dos processos sócio-culturais que ocorriam na sociedade. Bispos envelhecidos e estrangeiros, comprometidos com a monarquia, contrários a laicidade do Estado ficaram no ostracismo de 1889 a até 1920. Porém, o contato da Ação Católica brasileira com o laicato europeu possibilitou avanços não esperados pela hierarquia a partir da década de 30 no Brasil.

Inicialmente a proposta tinha aparência de cristandade, porém as jovens lideranças em contato com a realidade do mundo operário, estudantil, universitário, político e cultural vão agregando novos projetos e utopias que possibilitam novos caminhos para o laicato católico. Da cristandade para a inculturação sócio-eclesial.

A duas possibilidades – cristandade e inculturação – promova um divisor de águas entre os membros da Ação Católica. Conforme avança a presença e a participação do laicato na vida social e eclesial novas leituras e metas são estabelecidas. Ocorrendo assim a divisão da segunda geração da Ação Católica: de um lado conservadores e tradicionalistas com destaque para a figura de Plínio Correa e de outro lado um campo mais progressista e renovador com lideranças como André Franco Montoro, Helena Iraci Junqueira e José Pinheiro Cortez.

Já nos anos 40 a Ação Católica consolida suas articulações em campos especializados de ação: juventude agrária (JAC), juventude estudantil e secundarista (JEC), a juventude indepentente ou paroquial (JIC), juventude operária (JOC) e a juventude universitária (JUC).

Das ações especializadas a JOC e a JUC vão conquistando seu protagonismo próprio e a autonomia institucional para melhor cumprir seus objetivos de inserção junto a realidade desta juventude.


Na próxima publicação vamos retomar a historia refletindo o papel do arcebispo do Rio de Janeiro Dom Sebastião Leme, o Centro Dom Vital e a Revista Ordem.