quarta-feira, 17 de junho de 2015

A nova manobra política de Dom Odilo

Posted by Redação On 20:23

Foto: Divulgação
O Sr. Cardeal Dom Odilo Pedro Scherer tem aparecido com frequência recentemente no noticiário, infelizmente, não por motivos que tragam uma melhor imagem para a nossa arquidiocese. Foi observada a sua estranha declaração sobre a transsexual crucificada na Parada LGBT, seu envolvimento com as denúncias contra o bispo de São José do Rio Preto (SP) Dom Tomé como investigador a pedido da Cúria Romana e a proibição da cátedra Michel Focault na PUC-SP.
É de se indignar e de se lamentar que mais uma vez o nosso arcebispo, que deveria ser notado apenas pelo zelo pastoral com seus fiéis, ficará em destaque agora com a futura criação do Consale (Conselho Arquidiocesano de Leigos), após reunião no próximo sábado (20).

A novidade causa estranheza, já que se sabe que já existe um conselho de leigos em nossa cidade, o Clasp (Conselho de Leigos da Arquidiocese de São Paulo), o qual tenho a graça de participar e representar há alguns anos.

Enquanto Dom Odilo Pedro Scherer ia visitar Dom Paulo Evaristo Arns no hospital Santa Catarina há uma semana, que estava internado, ao mesmo tempo articulava a criação de um conselho paralelo ao reconhecido por Dom Paulo em 1994 por meio de um decreto episcopal.

O Clasp atua há mais de 20 anos articulando os fiéis leigos e seus respectivos movimentos e organismos desta arquidiocese, zelando pelo protagonismo do laicato à luz do que foi determinado no Concílio Vaticano II e das diretrizes gerais da ação evangelizadora da Igreja no Brasil.

Dom Odilo, entretanto, parece não gostar dessa independência e argumenta não ter um conselho próximo a si. Importante destacar que o mesmo é sempre convidado pelo Clasp para encontros e reuniões e normalmente não costuma comparecer, quando aceita o convite permanece por um tempo curto e na maioria das vezes não é muito simpático ao colegiado dos leigos.

O cardeal avalia que possui a autoridade para criar um segundo conselho desvinculado do CNLB (Conselho Nacional do Laicato Brasileiro), mas seus argumentos estão baseados numa interpretação unilateral do Direito Canônico que não reflete a ação pastoral da Igreja no Brasil após o Vaticano II que conceitua Igreja como Povo de Deus (LG) e abre as portas para iniciativas inovadoras considerando a perspectiva conceitual/prática do laicato como sujeito eclesial e autônomo.

A perspectiva canônica é uma das possibilidades para compreensão da realidade, porém a análise restritamente jurídica é limitada e insuficiente para tratar de questões que envolvem organismos pastorais. Sendo assim, é preciso considerar a trajetória do Conselho de Leigos a partir do Magistério da Igreja, do ensino social e pastoral da Igreja na América Latina e principalmente as diretrizes da ação evangelizadora da Igreja no Brasil referenciada pelo episcopado brasileiro. Esta síntese poderá ser encontrada atualmente na segunda versão do Estudo 107 da CNBB recém-aprovado.

Quem é Dom Odilo?

Tais equívocos podem ser explicados pela trajetória do cardeal como ministro ordenado, histórico este marcado por uma carreira ascendente na estrutura hierárquica durante os papados de João Paulo II e Bento XVI. Período este em que a Igreja no Brasil foi perseguida pela cúria romana por meio do controle e censura de bispos, teólogos, organismos e pastorais sociais. Esta estratégia teve seu auge no final da década de 90 após o pedido de renúncia do Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns ao completar seus 75 anos.

A maior parte da sua função presbiteral de Dom Odilo esteve vinculada a setores administrativos da cúria romana. Dos seus 67 anos de vida, mais da metade esteve vinculado a vida fora do Brasil e por conta deste histórico sua experiência com as organizações do laicato, lamentavelmente, se deu apenas no contato com movimentos de espiritualidade de origem europeia. Quanto às questões pastorais e administrativas da Igreja, Dom Odilo é caracterizado por seu centralismo nas decisões e a dificuldade de ouvir críticas.

Poderíamos citar inúmeras das suas medidas adotadas na Arquidiocese de São Paulo que indicam que seu modelo de Igreja é pré-conciliar e não reflete a vida pastoral da Igreja no Brasil.

Sendo assim, a Igreja de São Paulo precisa é de um arcebispo na perspectiva do papado de Francisco. É urgente e necessária a presença de um bispo-pastor, que dialoga com as diferenças, construtor de pontes, reconhecedor da diversidade ministerial e vocacional, promotor de sujeitos eclesiais e interlocutor entre fé e vida.

É lamentável que, em uma nova manobra para afastar de perto os que não seus bajuladores, o nosso pastor se envolva novamente em "fofocas" nos bastidores sobre a sua falta de transparência democrática e a tentativa de esvaziar o conselho reconhecido por Dom Paulo Evaristo Arns na década de 90.

Em 2010, quando da realização do I Congresso de Leigos na Arquidiocese de São Paulo, a estratégia de Dom Odilo e compartilhada pelo até então bispo auxiliar Dom Tomé Ferreira da Silva era de enfraquecer o Clasp. Porém, a ação do laicato e a confiança em Deus permitiu que o resultado fosse o não esperado pela hierarquia, pois o Clasp e seus respectivos conselhos de leigos sairam fortalecidos do processo.

Nos últimos dias, o arcebispo tem já apresentado a sua minuta de criação do Consale aos seus bispos auxiliares e para o conselho presbiteral, no qual ninguém se atreve a dar a sua opinião contrária ou observações sobre a atuação de Dom Odilo. É evidente que a proposta de Dom Odilo não é consenso entre os religiosos que se calam.

Mas em conversas privadas, os mesmos religiosos comentam que o intento não deverá dar certo e dão graças por não terem de participar das futuras reuniões do conselho de leigos paralelo, que será composto por 25 leigos escolhidos por Dom Odilo que deverão dizer "amém" para tudo que o clero decidir sobre o laicato.

A proposta de criação de um segundo conselho de leigos é mais uma das medidas que refletem a cisão criada dentro da vida pastoral, pois suas atitudes reforçam ainda mais a compreensão que a maioria das lideranças leigas e religiosas tem sobre o cardeal. As atitudes alternam-se entre práticas de intervenção, censura, boicote, desconsideração, autoritarismo, uniformidade, imposição, restrição, arrogância e lamentavelmente levando à ignorância.

O próximo arcebispo de São Paulo terá muito trabalho, pois deverá reparar os erros e as práticas equivocadas do atual cardeal, dentre eles o cancelamento do conselho de leigos paralelo do arcebispo de São Paulo.

Que a Virgem-Maria e Jesus Cristo façam com que a indignação dos leigos nas diversas regiões da arquidiocese se torne fé para continuarmos seguindo a nossa caminhada à luz das mudanças do Papa Francisco.

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