terça-feira, 9 de agosto de 2016

A Igreja de SP e o Pokémon

Posted by Redação On 18:20


Voltava de uma atividade no domingo à tarde e ao passar pela praça principal do bairro onde resido observei que inúmeros jovens solitários acessavam seus celulares e um deles consegui identificar que jogava o tal dos Pokémons. Uma praça repleta de jogadores jovens solitários e do outro lado uma paróquia vazia e escura.

Numa passageira observação constata-se o que muitos afirmam: somos uma sociedade de indivíduos onde as relações tornaram-se virtuais, fragmentadas e líquidas.

Quem são os Pokémons? São figuras virtuais de um jogo que utiliza uma tecnologia de realidade ampliada e funciona com a ferramenta do GPS. Agora a nova moda é caçar Pokémon por todos os espaços e a prática vem sendo adotada por usuários dos aparelhos modernos de celulares e aficionados por jogos eletrônicos.

Os jogadores – em sua maioria jovens – andam pelas ruas de olho na tela do celular para capturar as figurinhas do Pokémon e no envolvimento com a realidade virtual se desdobram por diferentes artimanhas para atingir o sucesso no jogo.

Esta mania que chega recentemente no Brasil já virualizou-se entre norte-americanos, europeus e asiáticos e os fatos vão revelando que estes jogadores estão se colocando em situações de riscos e de reais acidentes, podendo inclusive levar a morte.

A história não termina aqui! Eis que surge uma campanha da Arquidiocese de São Paulo pelas redes sociais com a seguinte observação:

Pokémon: vai jogar em uma Igreja Católica?






Inicialmente achei a proposta uma heresia, mas parei para analisar a questão e compreendi que não se trata de um convite para jogar Pokémon nas igrejas e sim uma orientação como por exemplo: “você pode jogar, mas respeite o lugar e aproveite para rezar”. Esta é a minha reflexão, mas as pessoas terão liberdade para chegar a outras conclusões.

A arte divulgada nas redes é de uma figura em destaque - o padre - e ao fundo a imagem de uma das Igrejas da cidade de São Paulo. Entendo todo o esforço dos profissionais do marketing religioso para atingir o crescente público jovem fanático pelo jogo eletrônico e uma possível reaproximação destas pessoas com a igreja católica.

Com relação a campanha, considero que o conteúdo e a estratégia estão equivocados. Lamentavelmente ainda continuamos acreditando que a Igreja (prédio) é a referência e o ministro ordenado (padre) é a centralidade do espaço. E a “isca” do marketing é um jogo eletrônico que não favorece a experiência do encontro.

Estrutura e os ministros

Outra observação é que a figura do padre na arte divulgada pode inclusive ser confundida com a figura de um Pokémon. É preciso tomar cuidado pois a caça de novos personagens no jogo pode revelar intenções diversas.

Sabemos muito bem que é visível a diminuição da presença dos fiéis no espaço religioso, na frequência das celebrações dominicais e no acesso aos sacramentos. A afirmação anterior poderá ser questionada por aqueles que não compreendem bem o que estamos tratando. E eu irei concordar, pois as igrejas que estão lotando são aquelas que continuam utilizando de métodos medievais com práticas devocionais equivocadas, naquelas onde a figura do ministro ordenado se torna uma espécie de pop-star; a experiência religiosa é não passa de uma catarse; creio que já fui bem claro nas considerações.

Há de se destacar também que cristãos leigos e leigas conscientes do ser Igreja e do ser Cristão não mais se enquadram na lógica da centralidade institucional e a submissão aos ministros ordenados e pouco a pouco se colocam em processo de retirada. Não perdem a fé, apenas passam a professar e vive-la de forma nova e inculturada a partir de outros referenciais e muitos deles anunciados por Francisco.

Ser Igreja é tornar-se povo de Deus, como afirma o Concílio Vaticano II, e ser cristão é mais fundamental que qualquer espaço ou práticas devocionais.  O papa Francisco denuncia que o “eclesiocentrismo é uma heresia” e a missão da Igreja (povo de Deus) é o estado permanente de saída, que concretiza no cotidiano o projeto humanizador do Pai que Jesus nos apresenta como Reino.

Para o momento, apresentar o Reino aos jogadores de Pokémon é um grande desafio. A contribuição inicial e mínima da Igreja para com a sociedade deveria ser de promover campanhas educativas: não jogue enquanto dirige; cuidado com o trânsito nas ruas; respeite os locais privados; as igrejas não são espaços para jogos, entre outros.

Comente com o Facebook: